Fragmentos do Cotidiano: Dona Cida da Bixuta

por Lila Almendra e Rafael Melo, com fotos de Rafael Melo

Com o lenço no cabelo, colares e pulseiras, lá vai a Dona Cida, sempre elegante, para mais um de seus compromissos. Durante a semana, ela divide seu tempo entre os afazeres domésticos e as atividades fora de casa, como as aulas de dança circular e os encontros do Grupo Reviver. Já nos finais de semana não perde a missa da Matriz. E se tem festa, sua presença é garantida, “quando tem festa a gente tem que aproveitar, porque dormir dorme depois”, nos diz ela em tom de brincadeira.

Aos 84 anos, guarda na memória – e também nas paredes da sua casa – recordações que são um convite para horas de prosa na pequena sala, cuja janela emoldura, como um quadro, a Pedra do Coração.
Seu nome de batismo é Maria Aparecida Mendes, embora quase todos a conheçam como Cida da Bixuta, em referência ao apelido da mãe, que se chamava Delminda de Moura Mendes. “Era uma banqueteira daquelas! Ela fazia almoços e jantares para casamentos e batizados. Ela cozinhava muito bem, desde pequena”, conta dona Cida. Já seu pai era pedreiro, homem forte, que ainda cedo perdeu a visão, resultado de um acidente de trabalho. O casal teve outras duas crianças que faleceram muito pequenas.

Dona Cida é neta, por parte de mãe, de um dos primeiros alfaiates de Caldas, que se chamava Felipe de Moura. Já sua avó tinha como nome: Fé Esperança Caridade. O avô paterno era Vicente Mendes dos Reis, pedreiro, e a avó era Elisa Maria de São Sebastião, sobrenome que carrega sua origem: São Sebastião do Paraíso. Todos eles vieram para Caldas bem no início da formação da cidade, em meados do século XVIII.

A infância de Aparecida foi em uma Caldas que começava a se modernizar. Eram os anos de 1930 e 1940. “Não tinha calçamento, era tudo terra. Quando o Dr. Uriel [de Rezende Alvim, prefeito entre 1939 e 1946] veio pra cá foi que calçou a cidade”, lembra. Nessa época, o serviço de água e esgoto era privilégio de poucos. Quem não tinha, buscava água em chafarizes espalhados em pontos estratégicos: na descida atrás do Fórum, atrás do Souza Novais, onde hoje é o CRAS, no Vai e Volta e na Santa Cruz. “Na casinha velha ali da esquina, a vizinha tinha água encanada na casa, uns canos fininhos, aquela água demorava pra passar, você punha a lata lá, ficava toda a vida. Então pegava a água, trazia e colocava no barril de madeira”.

A primeira escola que Dona Cida frequentou era na casa de Dona Rosaura Generoso, onde hoje é a Eletro Zema. “Frequentei o Jardim da Infância ali. Tinha as cadeirinhas, a gente tudo sentadinho bonitinho. A gente brincava no quintal, outra hora ali na praça. A mãe da Dona Rosaura gostava muito de passarinhos, tinha gaiolas, viveiro. De vez em quando a gente abria o viveiro, soltava tudo os passarinhos!” – lembra aos risos. Depois, a menina Aparecida foi para escola de Dona Elvira Rodrigues Pereira – que, segundo Cida, “não era formada, mas ô pro-fes-so-ra, viu! Meu Deus do céu!” –, que ficava onde é a atual Padaria Brasil. Mais tarde, seguiu os estudos no Grupo Escolar Souza Novais.

Aos finais de semana, junto dos amigos, subia a serra e ia à Pedra do Coração fazer piquenique. Aliás, a serra é um lugar que Dona Cida conhece bem, pois era lá que buscava lenha para acender o fogão da casa. “Hoje eles falam “vamos fazer caminhada”, eu falo “Virge Maria, já caminhei nessa serra inteira”. Neste período, a cidade contava com uma frota “de três carros, só. Então a gente brincava tranquilo, podia correr pra baixo, pra cima que não tinha nada…”

Já mais mocinha, a diversão era outra. Naquela época, Caldas tinha duas orquestras que se apresentavam frequentemente nos salões de bailes: a do Zé Ferro e a do Afonso D’Ambrósio, que atraíam o público em massa, “o dia que não tinha sessão de cinema aí então tinha os bailes”. Dona Cida também se lembra com carinho da Festa de São Benedito, realizada no Largo do Rosário. Seu avô paterno, Vicente, era Mestre Congadeiro e, apesar de não tê-lo conhecido – morreu quando ela tinha dois anos – ela conta que o Terno de Congo dele era chamado para se apresentar em cidades da região. Mas, por falta de interesse na continuidade, o grupo se desfez aos poucos, até ser extinto.

Quando perguntamos se existe alguma coisa da juventude que ela sente saudade, Dona Cida é pontual: “Ah, tem! Nossa! O carnaval na praça, carnaval na rua!”. E conta que durante a folia, a praça ficava cheia de confete e serpentina e que a limpeza era feita com a ajuda de burrinhos com carroças, que levavam o material para os depósitos de lixo fora da cidade (hoje Chácara Tatal e Estação da Copasa).

Sempre religiosa, Dona Cida nos relatou que a Igreja não tinha funcionários como hoje, “o pessoal tudo que reunia pra fazer limpeza na igreja, “vamo”, pra fazer as coisas da igreja, “vamo”. Ela também se recorda das festas do “Corpo de Deus”, o Corpus Christi. Antigamente, a praça era ornamentada com varinhas de bambu enroladas com tiras de papel crepom, para a passagem da procissão. Cida nos conta que “as pessoas enfeitavam as janelas com toalhas, tudo né. Aí depois que começou a fazer os tapetes, porque teve a inauguração do Ginásio, então os alunos do Ginásio faziam os tapetes. Tinha o Lions Clube, a Dona Ofélia, o Dr. Edson, que faziam essa parte social, juntavam todo mundo pra fazer os tapetes. Muitas vezes que eu lembro era assim: tingia a cal, os alunos faziam o desenho no calçamento, fazia a pintura. E ali só passava o Santíssimo, nada de ninguém pisar ali em cima. Distribuía assim muita flor vermelha, muitas folhas. Era muito bonito! A meninada da aula de pintura do ginásio caprichava na confecção dos tapetes. Teve uma vez também que teve a Campanha do Agasalho, aí foi comprado muito cobertor, aí foi só de cobertores, aquele tapete enorme, aqueles cobertores xadrez, foi muito bonito também. Depois iam recolhendo os cobertores e eram doados pras pessoas, nessa época do frio. Aí depois começou a fazer com pó de serra.”

Já adulta, Dona Cida viveu um tempo fora de Caldas. Passou pelas cidades de Pouso Alegre, Campinas e São Paulo. Trabalhou como cuidadora de crianças e doméstica. Ao regressar a Caldas, foi funcionária da Santa Casa – cozinha, limpeza e enfermagem – e, mais tarde, passou a trabalhar na Creche Esperança Bretas. O cuidado e dedicação aos outros sempre foi uma marca forte na vida de Dona Cida, que optou por não casar para cuidar do pai cego e da mãe. Ainda hoje não nega ajuda a quem precisa. “Tem muitas pessoas que falam pra mim: – ô Cida, mas se eu fosse ocê eu cobrava! Eu falo “uai, mas vou cobrar pra que, gente? Eu cresci assim. Não tem necessidade. Se eu quisesse cobrar eu cobrava, mas eu cresci assim”.

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