Kiriris de Caldas fundam associação e afirmam: ‘Essa terra é nossa’

Cerimônia de fundação da Associação Indígena Kiriri de Caldas reuniu cerca de 100 pessoas, entre indígenas, comunidade do Rio Verde, políticos locais e apoiadores. Objetivo maior é garantia da permanência na terra

por Alan Tygel, com fotos de Sandra Ribeiro

Ao programar o ato de fundação da associação indígena para o domingo, 27 de janeiro, a tribo Kiriri de Caldas jamais poderia imaginar que dois dias antes aconteceria mais uma tragédia provocada pela ambição das mineradoras no Brasil. Assim, o evento que simbolizou mais um passo na luta do Kiriris pela terra em Caldas, foi marcado também por dor, luto e revolta pela tragédia-crime de Brumadinho.

O evento se iniciou com um Toré – dança indígena – que trouxe o poder da natureza e dos encantados para abençoar o dia. Logo em seguida, Frei Gilvander, da Comissão Pastoral da Terra, discursou lembrando que as vítimas de Brumadinho são vítimas do modelo de desenvolvimento que coloca o lucro acima da vida – o capitalismo. Segundo ele, “a Humanidade só terá futuro se tivermos a humildade de aprender com os povos indígenas”.

Em seguida, o Padre Fabiano, de Caldas, também deixou sua bênção, lembrando que a paróquia já reza, uma vez por mês, a missa na aldeia. O Padre acrescentou ainda que está construindo um projeto para a Campanha da Fraternidade, cujo tema deste ano são as políticas públicas: “Vamos continuar apoiando a comunidade”, afirmou o Padre Fabiano.

Fizeram ainda pronunciamentos de apoio aos Kiriris a vereadora Rita Westin, o vereador Tião do Mané, e o ex-vereador Vanderlei Tomé. Representando a comunidade do Rio Verde, a líder comunitária Sandra comemorou a fundação da associação como a “primeira vitória”, de muitas que virão.

O prefeito de Caldas, Dr. Alex, também compareceu à aldeia para demonstrar seu apoio: “Podem contar com a gente, estamos aqui para atender da melhor maneira possível.”

Também esteve presente na aldeia o Comandante da Polícia Militar de Caldas, Ten. Keiler. Ele ressaltou a função social da polícia, que tem por missão garantir a paz, a ordem e a tranquilidade: “Este é um momento ímpar para a cidade de Caldas. É com alegria que vejo tantas pessoas reunidas lutando para o bem. Caso haja uma reintegração de posse, nós não vamos chegar aqui com violência, pois aqui tem pessoas. E nosso dever é proteger pessoas, independente de raça, cor, classe social ou etnia. Nós trabalhamos sempre com o diálogo.”

André Luis, da Aliança em Prol da APA da Pedra Branca, Uschi Silva, do Núcleo de Agroecologia Araucária Viva, Alenice Baeta, do Cedefes e o contra-mestre Ewerton, da Escola da Capoeira Angola Resistência, também deixaram suas palavras de incentivo.

Cacique Adenílson, da Tribo Kiriri de Caldas. Foto: Sandra Ribeiro

Encerradas as falas dos apoiadores presentes, o Cacique Adenílson contou a história da tribo e todas as dificuldades encontradas até a chegada em Caldas. Um dos momentos mais difíceis foi quando, após o despejo em 2017, os Kiriri foram enviados pelo governo de Minas Gerais para uma terra em Patos de Minas, onde não havia nenhuma estrutura.

Foi então que a rede de solidariedade do Rio Verde entrou em ação. Através de doações captadas na comunidade, os Kiriri conseguiram recursos e um caminhão de mudança para voltar a Caldas. Segundo ele, o dia de hoje foi “um momento de alegria, um passo à frente”.

Após a aprovação do estatuto e eleição da diretoria, o evento contou com momento de grande simbolismo. A menina Maria, de 4 anos, plantou uma muda de Jenipapo, árvore cuja semente é utilizada na pintura corporal indígena. “Hoje nós nos pintamos com Jenipapo trazido do Espírito Santo. Futuramente, vamos ter nossa árvore aqui.”, afirmou Carliusa, outra liderança da aldeia. E ela garante: “Eu vou ser enterrada aqui”.

Um momento de grande emoção foi a apresentação da Escola de Capoeira Angola Resistência, que homenageou mestre Môa do Katendê, capoeirista assassinado após afirmar que votara em Fernando Haddad nas eleições de 2018. Foram ressaltadas as ligações culturais entre indígenas e afrodescendentes, ambos historicamente violentados no Brasil, e que hoje lutam por seus direitos.

O evento se encerrou com um Toré, diante do compromisso de apoio de todas as instituições presentes à luta dos Kiriri. Em uma só voz, todos gritaram: “Essa terra é nossa!”

Entenda o caso

A tribo Kiriri se instalou na cidade de Caldas, no Sul de Minas Gerais, em outubro de 2016. O tamanho reduzido da terra indígena, e redução da quantidade de peixes no Rio São Francisco forçou a migração forçou a migração de parte da tribo em busca de um local onde pudessem viver com dignidade e preservar sua cultura.

Desde então, o Kiriri ocupam um terreno pertencente à UEMG, que estava há mais de uma década abandonado. Em 2017, após uma ordem de despejo, a tribo saiu do local e se instalou em Patos de Minas, seguindo orientações da Funai. O local, no entanto, não apresentava nenhuma estrutura e o Kiriris voltaram, incentivados pela própria comunidade do Bairro do Rio Verde.

Hoje, a tribo conta com 12 casas de taipa, criação de galinha, porcos, horta e duas áreas de plantio de milho e inhame. As negociações com a UEMG vinham avançando, e já há um projeto de extensão da universidade planejado para o local.

No dia 24 de janeiro ocorreria uma audiência de conciliação entre os Kiriris e UEMG. Esta audiência, no entanto, foi cancelada. De acordo com a AGE, após a troca de governo, será preciso aguardar uma manifestação da nova administração estadual.

Tribo Kiriri de Caldas na eleição para associação indígena. Foto: Sandra Ribeiro

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