Conferência chama atenção para cuidados com idosos em Caldas

Não vamos deixar que acabem com a previdência”, alertou a palestrante Tomiko Born. “Se isso acontecer, vai trazer prejuízos enormes não só aos idosos, mas também a municípios como Caldas

por Alan Tygel, com fotos de Cuia Guimarães

Com o tema “Os desafios de envelhecer no século XXI e o papel das políticas públicas”, foi realizada nesta segunda (1) pela primeira vez em Caldas a Conferência Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa. O evento aconteceu na Câmara Municipal.

Na abertura dos trabalhos, o prefeito Dr. Alex (PTB) enfatizou que o cuidado com o idoso é dever do Estado, mas também da sociedade. Ele lembrou a importância do trabalho feito tanto pela Santa Casa como pela Vila Vicentina, instituições que lidam diretamente com a população idosa em Caldas.

Em seguida, foram apresentados os membros já definidos do recém criado Conselho do Idoso. Ao todo, serão 12 conselheiros/as titulares e 12 suplentes, indicados pela prefeitura e pela sociedade civil, que terão a responsabilidade de fiscalizar a implementação das políticas para idosos na cidade.

O ponto alto do evento foi a palestra proferida pela assistente social Tomiko Born. Aos 87 anos, e morando em Caldas desde 2003, ela possui um longo currículo de contribuições a elaboração de políticas para idosos. Em 2008 organizou o livro Cuidar Melhor e Evitar a Violência – Manual do Cuidador da Pessoa Idosa, publicado pela Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República.

“Não digam que eu estou na melhor idade. Isso é uma forma de camuflar o preconceito. Eu sou uma mulher velha, com todos os desafios que a idade nos traz”. Assim foi o início da fala de Tomiko, que apresentou dados sobre o envelhecimento da população. Segundo ela, o que antes se chamava “pirâmide demográfica” hoje está se tornando um retângulo. “Em 1950, havia apenas 2 milhões de idosos no Brasil que eram 4,3% da população. Em 2040, projeta-se que serão 55 milhões, representando 27%. Os maiores de 80 anos, que eram apenas 200 mil, serão 13 milhões de pessoas”.

Tomiko explicou que nos países ricos, a transição demográfica, como é chamado este fenômeno, ocorreu após a Segunda Guerra Mundial, de forma lenta, acompanhando as melhorias de vida da população. Já em países como o Brasil, o processo está se dando de forma mais abrupta, sem que problemas básicos como a desigualdade, pobreza e falta de assistência em saúde tenham sido sanados.

“A pessoas chegam na fase idosa trazendo problemas que acumularam durante a vida. Os idosos hoje são 55% mulheres, têm baixa escolaridade, más condições de saúde, e têm sua base familiar enfraquecida”, pontuou Tomiko.

Assim, Tomiko indicou para os conselheiros e gestores públicos presentes algumas das prioridades a serem tratadas nas políticas para idosos. Segundo ela, é fundamental um processo de educação formal continuada, aliado a atividades artísticas, esportivas e ao desenvolvimento espiritual.

De acordo com ela, a primeira ação deve ser conhecer o Estatuto do Idoso, lei criada em 2003 com a participação de Tomiko. Outro marco legal importante é a Política Nacional do Idoso, de 1994.

A figura do cuidador foi lembrada por ela: “Em Caldas há muitos idosos dependentes. Muitas vezes vemos os cuidadores esgotados. Não é raro ver cuidadores morrerem antes dos idosos. O Estado precisa dar apoio aos familiares de idosos dependentes.”

Outro ponto concreto lembrado por Tomiko foram as barreiras arquitetônicas: “Caldas está cheia de armadilhas para idosos. Aqui mesmo na Câmara não tinha corrimão. Agora, muitas vezes ele vira lugar de enfeite, para colocar flores. Cidade precisa enfrentar as barreiras arquitetônicas.”

Tomiko ainda aproveitou a oportunidade para dar dicas sobre como ter uma velhice bem sucedida. Para ela, não há fórmulas prontas, pois cada pessoa envelhece de um jeito. Mas é preciso adotar um estilo de vida saudável, fortalecer os laços sócio-afetivos, estar pronto para adotar novos hábitos mentais e físicos, e principalmente desenvolver uma filosofia que dê significado à vida.

Para Tomiko, um grande desafio deste momento é a implementação efetiva das políticas em defesa dos direitos das pessoas idosas. Neste sentido, ela alerta para o perigo representado pela Reforma da Previdência proposta pelo atual governo:

“Não vamos deixar que acabem com a previdência. Se isso acontecer, vai trazer prejuízos enormes não só aos idosos, mas também a municípios como Caldas, onde uma parcela grande da sociedade é idosa. Espero que vocês estejam conscientes disso.”

Tomiko finalizou com uma linda frase de Cora Coralina: “O que vale na vida não e o ponto de partida, e sim a caminhada”.

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