Trabalho coletivo, mutirão agroecológico e farinhada de mandioca orgânica

por Uschi Silva, do Núcleo Araucária Viva de Agroecologia

O sabor da farinha de mandioca, quentinha e crocante, ainda perdura desde a última segunda-feira, dia 22, quando um grupo de 12 pessoas realizou a farinhada de mandioca orgânica.

A ideia surgiu há dois meses, durante a visita de pares, nome técnico para uma das etapas da certificação da produção orgânica. Leni Hesponhol, agricultora e médica integralista, recebia o grupo de agricultores e técnico em sua propriedade. A agricultora questionou o que poderia fazer com as mandiocas passadas do tempo da colheita. O técnico presente, sugeriu à Leni que fizesse farinha de mandioca. A conversa não parou por aí, e rendeu.

Pedro Martins, também em processo de certificação orgânica, acompanhava o grupo na visita e já tinha esboçado a vontade de fazer farinha, processo que aprendeu com sua mãe. Com um sorriso no rosto dizia “isso foi passado da minha mãe para mim, deve ter uns 50 anos mais ou menos, o ponto tudo certinho, sabe? Café ela me ensinou a torrar também. Minha véinha sabia fazer as coisas”.

Dois meses depois, a tão sonhada farinhada aconteceu. Pedro e Leni organizaram o mutirão da farinhada no sítio Revitalle, localizado no bairro da Bocaina, em Caldas-MG. Era cedo e fazia frio quando chegamos ao local, mas Leni nos esperava com um café da manhã quentinho e energético. Na mesa, mingau cru de aveia hidratada com frutas, leite de amendoim com alfarroba, patê adoçado com melado e pães e bolos veganos sem glúten, além de ofertas de frutas variadas e muita prosa!

Bem alimentados e com energia nos dividimos no trabalho e nas etapas, um grupo ficou por conta de ralar a mandioca em dois tipos de ralos, elétrico e manual. Outro grupo se dedicava a peneirar a mandioca ralada e seca com o cuidado de não deixar que bolinhas se formassem, por conta do amido ainda contido nesta etapa do processo.

Enquanto isso, Pedro Martins e Dona Eva garantiam mexer a farinha no fogão a lenha sem parar. A torra da farinha mereceu um cuidado especial, ou melhor, um segredinho que Pedro aprendeu com a mãe: “essa técnica de deixar um pouquinho de farinha seca na panela e misturar com a farinha que ainda vai torrar, ela que me ensinou. Essa técnica é para que, quando você põe a farinha molhada dentro da panela ela não empelota, ela mistura com a outra. Minha mãe falava muito desse segredinho”.

Entre uma etapa e outra, falávamos da mandioca, um alimento ancestral que foi cultivado pelas diversas etnias indígenas deste extenso território. Como herança cultural e alimentar, a farinha de mandioca está em diversos pratos, mas também tem a tapioca, a massa de puba, o polvilho e tantas outras formas possíveis de processamento dessa raiz.

Os alimentos de origem vegetal, como a mandioca, é opção para a boa nutrição e o seu consumo fortalece a agricultura familiar local, promove a biodiversidade e contribui para redução dos impactos ambientais.

O dia foi de trabalho, aprendizados e trocas de saberes e muitas conversas ficaram na memória, como o sonho de consolidar o trabalho cooperativo, gerar renda local, produzir alimentos livres de agrotóxicos e conviver com a natureza de forma integrada. Mas também a felicidade do grupo, esboçada em palavras, por ajudar uma das companheiras do Núcleo Araucária Viva a aproveitar cerca de 200 quilos de mandioca.

E como não falar do prazer em saborear uma comida de verdade e tão brasileira? Ainda me inspira o cheiro quentinho da farinha saindo do tacho, com sorrisos e esperança.

2 comentários em “Trabalho coletivo, mutirão agroecológico e farinhada de mandioca orgânica

  • 26 de julho de 2019 em 17:00
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    Foi maravilhoso receber os amigos aqui! Precisamos mais disso!

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  • 27 de julho de 2019 em 06:36
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    Muito boa a história.
    Que venham outras.
    E muito bom também o Sonha Caldas digital.
    Parabéns a todos.

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